Aquele papo de bêbado solitário

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um negócio que tenho feito desde que cheguei aqui é parar de vez em quando e me dizer: "Ana, tu tá na Alemanha". Não sei exatamente porquê faço isso, mas talvez seja porque eu devia estar surtando diariamente com esse fato, mas na real não estou. Aí hoje, enquanto tomava minha cervejinha semanal (que duplicou nas últimas semanas, ou seja, um litro em cerca de uma hora - ao que parece, há no fim razão pra me chamarem de bêbada), sem o inglês ou qualquer outro ser com quem conversar, parei pra me dizer isso de novo e tentar resgatar a emoção da coisa. 

Quando comecei a anunciar a viagem, meio mundo me felicitou por estar realizando "o meu grande sonho", enquanto outro bocado de pessoas, que acompanharam mais de perto a trashidade do meu último ano, disseram "vai e aproveita". Na verdade, eu ainda sou incapaz de dizer que esse seja meu grande sonho, apesar de não encontrar nenhum outro e reconhecer que sempre tive um surto específico pela terra dos germânicos (não foi só uma vez que me descreveram com as seguintes três palavras: Grêmio, Alemanha e Polar - só assumo a parte da Polar, o resto é exagero). Quanto a escapar do que me atormentava, devo dizer que (como sou do contra) quase recusei o convite por receio de que o planeta explodisse, sem falar que eu duvidei até o último momento que eu realmente colocaria os pés aqui. 

Pois bem, já foram-se três meses e meio. Volto às terras tupiniquins na manhã do dia 30 de dezembro (agora tá confirmado, podem começar a contagem regressiva para o fim da paz de vocês, caros caxienses). Em um mês tenho duas semanas livres para andarilhar por aí e estou longe de admitir qualquer suposição de sair dos limites alemães (Paris só me convenceu de que devo ficar aqui - tranquilidade, pessoas legais e cerveja barata, ou seja, o lugar com o qual Basso sonhou). Mais férias em agosto. Shows em setembro - e Oktoberfest. Feira do Livro de Frankfurt (a maior do mundo) em outubro. Ou seja, no momento não sei a verdadeira da coisa. Ok, teve Berlin, mas aquilo foi um caso a parte, foi na louca, nada programado além da ida e da volta. Enfim, o negócio é que agora começou a parte de calcular, olhar calendário, olhar saldo no banco. Vamos ver o que acontece.

Aos poucos vou perdendo a sensação de que é tudo uma viagem mental ou a vontade de parar e dizer: "Ok, gurizada, podem parar a brincadeira. Hora de voltar a falar português!", mas aí eu olhava as placas nas ruas, os jornais nas bancas, os cartazes no mercado e me dizia: "Olha, Ana, até onde parece tu tá mesmo na Alemanha". Aí eu começava a tentar resgatar o meu surto por esse país e sempre fracassava. Vamos ver se consigo agora.

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Hmm, não. O que eu me lembro, basicamente, é de ouvir meu pai falar muito do pai dele e, consequentemente, da família. Aí entre imaginar as razões de um casal Seerig ter ido pro Brasil e a família que ficou na Alemanha, tinha um jogo aqui e outro lá da seleção alemã, era Copa, era Kahn, era Ballack, e as camisetas bonitas do meu pai (sendo que me adonei de uma delas). Sem falar que tinha Schumacher, tinha Mercedes, tinha isso e aquilo. Enfim, meu pai só falava em Alemanha (antes que me xinguem, devo dizer que fiquei dividida naquela final de 2002, tal como meu pai, ainda tinha certo brasileirismo na época) e, como eu vivia com ele, acabei pegando a febre.

Mas aí, cá estou eu e não sei exatamente porquê eu sempre me disse que teria que conhecer a Alemanha (talvez venha daí a crença de alguns de que esse era meu maior sonho). O fato é que está melhor do que eu jamais imaginei: pessoas simpáticas (não, alemães não são estúpidos); cidades agradáveis (tudo que eu tinha em mente eram estádios de futebol e Munique - que eu vou conhecer, já que é aqui do lado quase); sociedade não-perfeita (aqui tem gente atravessando em sinal vermelho, tem lixo em alguns lugares e as pessoas reclamam do clima) e, claro, cerveja boa e barata.

Não sei qual é exatamente o objetivo desse post, sei que tinha uns outros em mente, mas que há quatro horas atrás, voltei do bar, coloquei um título e fui trabalhar mais um pouco. Eis-me agora escrevendo e, provavelmente, perdendo um bocado da emoção que a ideia geral tinha inicialmente. Mas ok, pra quem tá começando a assimilar agora que as pessoas ao redor falam outra língua e que nada mais é que uma estrangeira, podia ser pior.

Pra não perder o costume, Wander:



Bis bald! 

6 comentários:

Mia Sodré disse...

Ri muito com a música! hahaha Mas gostei. Achei digna.
Ah Ana... nem posso opinar muito sobre esse teu sentimento de não estar tão empolgada assim com a Alemanha porque não sei qual seria a minha reação se estivesse na Inglaterra (ascendência de lá também) mas creio que seria algo mais ou menos assim. Não sei demonstrar empolgação.
Alemães simpáticos! Tá aí algo que não imaginava! :)

Beijo!

Lúcia Soares disse...

Oi, Ana. Muito bom ler você, mesmo quando divaga e se perde no que queria falar. rs Entendi tudo, foi bom ler.
A música é engraçada, espero que não leve a sério a letra: "só quero que você entenda o quanto eu preciso disso!" rs
Curta muito essa Alemanha que você já gosta tanto.
Beijo!

Pandora disse...

Não vou escutar a música! #MeJulgue

Mas, acho que não seria sua cara surtar com qualquer coisa que seja.

Tamara Luersen disse...

Ana! Adorei o post, mesmo. Tou me sentindo assim também. Empolgada e não por estar aqui. Mas passa, com toda certeza a cerveja ajuda a esquecer isso e tudo se torna mais fácil. Vi tuas fotos e como eu, encontrou meninas para a companhia! Isso é super! Ah quando quiser vir a München, me avisa, posso te fazer companhia (um pouco eu conheço). Beeijos

GrazieWecker disse...

Sério, cada vez que tu diz que a Alemanha não é perfeita me dá mais vontade de conhecê-la também.

Pandora disse...

Vc foi falar de papo de bebada solitária e encontrou posteriormente toda uma turminha... #IssoéBom