De um sábado a outro

domingo, 28 de abril de 2013

No dia seguinte ao meu papo de bêbado aqui na semana passada, tinha um encontro de au pair em Stuttgart. Apesar de ser aqui do lado, eu não tinha voltado lá pra dar umas voltas. Aproveitei o encontro e disse pra Mo (a sul-africana que encontrei na ida a Paris e me reuniu com o resto do grupo): "Eu vou e depois tu pode me mostrar um pouco da cidade". Certo, então. A porcaria é que quando eu tive essa ideia, tinha sol há uns três, quatro dias. Mas no sábado o sol sumiu e a chuva deu sinal. Grande dia pra passear, hein? Aí uma das gurias do encontro das au pairs disse que queria ir na Frühlingsfest (Festa da Primavera), a Mo gostou da ideia, eu disse que por mim tava ok (apesar de, então, não ter ideia de que a moral da festa é cerveja - afinal não se pode esperar o ano todo por outubro, certo?) e aí fomos.

Aqui vale o registro de umas coisas mais bonitas que vi nessas bandas: quando o trem chegou em Stuttgart começaram a aparecer criaturas de roupinhas alemãs e naquele embalo de quem passou a última horas bebendo cerveja (Festa da Primavera, Ana!). Nisso aparecem dois casais jovens e sentam perto de mim (as gurias com o típico vestido, aliás, devo dizer que estou impressionada com essa adoração deles por usarem as roupas típicas alemãs - se tiver desconto na cerveja, vou ter que arrumar um vestido pra mim). Um dos guris estava com umas quatro long necks cheias, enquanto tomava uma quinta. Nisso um cara já bem bêbado pergunta: "Vocês poderiam me dar uma cerveja?". O guri com as cervejas não pestanejou, disse um "claro!" empolgadíssimo e entregou uma garrafa pro cara. Tri normal, né? Quase que eu virei pro lado e pedi uma também. 

Chegamos lá e tinha uma parque enorme, com todos os brinquedos possíveis, a la "Quero ser Grande".  Mas era o primeiro fim de semana da festa e tinha chuviscos, então não tinha muita gente. Até então eu não tinha entendido a moral da coisa, o máximo que eu desejava era o meu copinho de meio litro de cerveja de sempre. Aí a Mo começou a me pedir coisas do tipo (e, veja, ela só passou três dias comigo em Paris, onde a cerveja é cara e eu nem falei em beber): "Ana, tu já consegue sentir o cheiro da cerveja? Pode perceber que estamos chegando perto?". É, ao que parece minha fama de bêbada não tem mais volta. 

Pra resumir a coisa toda, depois de ver uma barracão com uma fila enorme pra entrar, fomos pro que não tinha fila nenhuma e entramos tranquilamente depois de mostrarmos os vistos. Foi só eu entrar ali que eu me disse: "Isso é, de fato, a Alemanha". Roupas típicas por todo lado, canecões de um litro, mesas enormes, bandinha tocando, alemães brindando, cantando e dançando em cima dos bancos (imaginem a força desses bancos pra aguentar umas quinze pessoas pulando de pé em cima deles). Foi um dos negócios mais incríveis que vi na minha vida. O espírito ali era de alegria pura. Já tinham alemães no nível de alcoolismo suficiente pra ficarem se abraçando, fazendo declarações de amor aos amigos e pulando em frente a toda câmera fotográfica que encontrasse. A parte estranha da coisa é que, enquanto eu pedi um canecão pra mim, as outras cinco gurias dividiram dois litros entre si. E eu terminei primeiro. Eu, que mal bebo! Como pode?




Zig, zag, zig, zag, hey, hey, hey
Copo um pouco maior pra variar. 

O grupo todo. Em algumas horas quase ficamos amigas
de longa data. Viva a cerveja.

Olha aí a Mo e sua simpatia e amor por fotos de sempre.

Qual é o meu?

Depois de um sábado desses, uma legítima "Tage wie diese" -tradução pra entender o que digo- (aliás, além dos hinos cervejeiros tradicionais, também rolou Die Toten Hosen, com todo mundo cantando empolgadamente - enquanto eu tentava acompanhar sem saber a letra direito, o oposto aconteceu na hora que cantaram "La Bamba"), a semana que seguiu não deixou muito a desejar. Passei ela toda uma simpatia que surpreendeu até eu mesma. Ou foi o álcool, ou eu tô me habituando de fato com a coisa toda aqui, às vésperas de completar quatro meses de Alemanha.

Como eu já não lembro mais em que dia aconteceu o quê, vamos por lista dinâmica antes de finalizar com a narrativa de ontem:

- No curso, eu e a pernambucana cearense discordamos tanto no que se refere à língua portuguesa e à cultura brasileira em si, que ela acabou por concluir que o Rio Grande do Sul não faz parte do Brasil, é um país próprio;

- Falando em RS, essa semana outra au pair brasileira veio falar comigo, a Rita, se emocionou com o meu 'sotaque' no blog (já tinha até desacustumado com pessoas reparando nisso) e mais ainda com o meu papo com ela. Imagina quando ela me encontrar pessoalmente (eu realmente espero que a parte de pular no meu pescoço seja brincadeira, Rita). Devo dizer que nunca vi ninguém não-gaúcho tão empolgado com o RS quanto ela;

- Chegou meu ingresso pro show do Die Prinzen! Dia 14/09 me mando mais pro sul da Alemanha pra vê-los;


- Na última semana uma prima francesa dos guris ficou por aqui. Ela fala alemão também (pai alemão), apesar de não saber ler e escrever na língua. Muito querida ela. Num dia que esperávamos o pequeno no Kindergarten, pedi o que ela tava achando da Alemanha e expliquei que achava os alemães muito simpáticos e tal (ou seja, agora todos os pais das crianças do Kindergarten sabem que eu sou brasileira e que eu tô surtando aqui por essas bandas), e ela disse que também gostou do pessoal por aqui. Aproveitei e pedi pra Gastmutter comprar leite-condensado pra fazer negrinho. A outra au-pair costumava fazer sozinha, mas eu sugeri fazer com as crianças e todos adoraram a ideia (o que me deu um pouco de medo, mas no final deu tudo certo); 

O que é, o que é?

Não acabou em desastre, afinal.

- A primavera começa a dar as caras, afinal. Quando o tempo bom surgir num dia de folga, tiro umas fotos mais meigas pra comparar com as do inverno, mas acho que essas dão pro gasto por agora;




- FINALMENTE acabei de ler os livros de "Diário de Um Banana", agora vou começar a encarar os livros que comprei por aqui (Hermann Hesse em letra gótica vai ficar pro final e vai ser lido na base da teimosia), começando por "Die Welle" (em português, "A Onda"), livro americano baseado em fatos reais dos Estados Unidos que rendeu um filme alemão muito elogiado;



- Chegou meu cartão do DeutscheBahn pra conseguir um descontinho nas viagens, dica que me foi dada ainda em Berlin mas que só agora, com minha organização de viagem pro fim do mês, me pareceu necessária. Daqui uns dias, quando estiver tudo certinho, falo em datas e lugares por onde passarei;

- Voltei a ter fé nos correios, então quem sabe eu volte a ter ânimo pra enviar cartas pra certos seres. 

E eu acho que era isso. Ou seja, tudo pode ser resumido em: foi uma semana desgraçadamente boa. Aí teve o dia de ontem, que deu errado em tudo que podia ter dado. 

Saí de casa tri faceira pra encontrar a Camila e a Mayara (as au pairs brasileiras que conheci na viagem a Paris) em Stuttgart e irmos para a Frühlingsfest. A Mo talvez nos encontrasse mais tarde, tal como outras au pairs. Pessoas com roupas típicas por todos os lados, vestidos pra vender na estação (e é caro, então a menos que renda cerveja gratuita, não compro). Depois de a Mayara ter que ir atrás de um banco pra sacar dinheiro e eu parar pra comer a fabulosa Currywurst alemã com batata-frita, fomos até o barracão em que eu tinha ido com as gurias semana passada. E tinha fila. Não era longa. Logo chegamos à metade e, então, tudo parou. Ninguém mais entrava. Tava lotado. Aos poucos muita gente foi desistindo e, quando vimos, estávamos na frente da fila (que já não era mais fila, e sim um amontoado de pessoas se empurrando). Depois de quase duas horas e meia de fila, com o boato que só liberariam a partir das 18h e levando em conta que ainda não eram 16h, desistimos nós também. E eu esqueci de falar que ontem chuviscou o tempo todo. 

Demos mais uma volta, as gurias encontraram um amigo suíço e rico delas (é por isso que eu devia ir "nas baladas", mas não) que tinha três mesas reservadas. Só que mesmo assim não pudemos entrar. E o cara tentou de tudo: tirar pulseirinha dos amigos e passar pra nós; descobrir caminhos alternativos ("só que vocês vão ter que escalar um pouco"); e até ofereceu dinheiro pros responsáveis nos deixarem entrar. Nada. Enquanto isso, a Mo, que já tinha aparecido, encontrou o cara que conhecemos semana passada e pagou cerveja pra uma das gurias (não pra mim, triste vida) na frente da fila e tava louca pra furar. Nós já estávamos podres. 

A Mayara com seu vestido de alemoa, estava com os pés encharcados, enquanto eu e a Camila concordávamos que só queríamos um lugar quente pra beber sossegadas. O melhor era desistir da festa e ir atrás de um pub na cidade, onde, além de tudo, a cerveja seria mais barata. A Mo não gostou muito da nossa falta de ânimo pra invasão, mas ela ainda ia encontrar as outras au pairs pra irem de novo pra festa. Nos separamos. 

Eram 18h30 quando nos sentamos numa maravilhosa área de não fumantes em um pub perdido no centro de Stuttgart. E, pra nossa alegria e surpresa, haviam ali copinhos de um litro, só que não da minha querida e amada Stuttgarter Hofbräu, mas sim da Löwenbräu, a cerveja que outro dia meu pai tinha pedido se eu já tinha tomado aqui.

Cerveja, finalmente! 

Eu sou rápida ou a Mayara é devagar? Dúvida eterna.

Acabamos intercalando minhas explicações gauchescas, tentativas de cantar "Garota de Ipanema" e papo com os caras do lado (pra quem a Camila disse que éramos cariocas, já que, segundo ela e a Mayara, brasileiras não-cariocas não são tão interessantes). Às 21h18 as gurias se mandaram pras suas cidades, enquanto eu cheguei em casa às 22h. É, podia ter sido pior. Tipo, os policiais de Stuttgart podiam ter me descoberto andando pra lá em pra cá de trem sem pagar ticket. 

Bis bald!

1 comentários:

Pandora disse...

Ei você não me contou que tinha uma pernambucana em teu curso. Depois de minha curta convivência mais virtual que concreta com gaúchos acabo pensando que gaúchos e pernambucanos são tão diferentes que chegam a ser parecidos. E concordo com os antropólogos da vida: toda cultura no singular é mistificação politica.

Leite condensado é bom em qualquer lugar e brigadeiro é uma delicia \o/

E a primavera é linda, esse céu azul é perfeito!!!

E quanto a cerveja ela e o refrigerante são dois líquidos cujo prazer em consumir eu nunca vou compreender!!!