Sobre a simpatia alemã

terça-feira, 23 de abril de 2013

Meu meio de aproximação com os alemães: cerveja. 

Já disse aqui que uma coisa que me surpreendeu a valer foi a simpatia alemã. Quer dizer, sempre ouvi que os alemães eram durões, na deles, meio frios ("é por causa do clima, eles mal sabem o que é sol!"). Baita mentira! Pelo menos na minha condição de caxiense. Enquanto em Caxias, se tu intercepta alguém pra pedir uma informação, tu ouve resmungos e/ou é ignorado; na Alemanha o que mais minha Gastmutter me disse e a família em Berlin foi: "Se tu tiver alguma dúvida, pede informação pra alguém na rua". Não sei se por teimosia de me localizar com mapas ou por consequência de ter me criado em Caxias do Sul, mas o fato é que nunca fiz o teste. Já tive demonstrações dessa boa-vontade naquele dia que fui conhecer Böblingen, fiquei me mongueando olhando as casas e esqueci de apertar o sinal de pedestres, aí quando fechou o sinal pros motoristas, veio um senhor que atravessava outra rua me explicar que eu tinha que apertar o botão ou os carros não parariam nunca. Isso sem falar na senhora que outro dia, quando eu voltava do Kindergarten onde fui levar o mais novo dos guris, saiu com a sua bela Mercedes daquela entrada que eu sempre achei tri fina e parou o carro pra me pedir se eu iria pro centro e queria carona. Além disso, a au pair ucraniana no primeiro dia que nos encontramos disse: "Eu ficava andando por aí, ouvindo música, sem prestar atenção onde eu ia, aí um dia me perdi. Falei o nome da rua e um senhor me pegou pela mão e me levou até em casa". Falando com a brasileira do curso, que chegou aqui sem falar alemão, ela disse que já aconteceu de fazerem isso com ela e sempre foram muito pacientes com suas mímicas.  

Mas enquanto eu estou plenamente convencida de que os alemães são ultra-mega-simpáticos, outro dia rolou um debate empolgado no meu curso no qual os meus colegas, que estão aqui há anos, reclamam de nunca terem encontrado um bom amigo alemão, que eles são reservados e não estão dispostos a ficar pra cima e pra baixo com alguém, como um bom amigo faria. Aí eu pensei, pensei, pensei de novo. Conclusão: eu entendo eles, e talvez, mais uma vez, a culpa seja por eu ser caxiense. 

Duas amigas minhas que foram pra Caxias estudar, reclamaram de como os caxienses são fechados, em seus próprios grupos, sem dar muito espaço pra novas pessoas. Do mesmo modo, já ouvi de um conhecido que morou em Porto Alegre pra estudar que, sim, os caxienses são fechados, mas isso não é extremamente negativo. Quer dizer, se teu carro quebrou e tu precisa de um mecânico, tu vai pedir indicação pra um amigo e só vão te indicar um conhecido, alguém em quem confie. Do outro lado, se tu abre um negócio novo, teus amigos vão fazer sua parte pra divulgá-lo e apoia-lo. Ou seja, os caxienses não amam pessoas de imediato, mas quando simpatizam e confiam em alguém, bom, de fato eles simpatizam e confiam. Não tem essa de te amo hoje e te odeio amanhã. Os alemães também são assim.

Eles são extremamente na deles. Se eles veem que tu não quer papo, eles não vão papear. Mas, e falo pelo que aconteceu comigo, quando eles veem que tu tá mais tranquila, eles vem te perguntar como tu está e, no meu caso, se tu está se adaptando bem. E aí, claro, conforme for tua reação, eles vão continuar sendo legais contigo ou simplesmente te deixar na tua (ou seja, se tu é estúpido ou grosso com eles, esqueça-os). Deve-se lembrar aqui que eles tem por costume dizer "bom dia" a todo mundo que passa, então é legal responder, até porque, do contrário, ao menos na vizinhança te acharão extremamente antissocial. 

A questão é que as pessoas têm essa mania de "best friend forever" (que eu, aliás, sempre achei ridícula e incompreensível), que significa que, se elas tiverem quem as ouça 24h por dia e ande agarrado ao seu braço, elas não precisam de mais ninguém. Aí eu pergunto: por quê? Óbvio que os alemães têm também seus amigos mais chegados, mas essas amizades acontecem por gostos comuns, opiniões parecidas e natural simpatia entre si; e não porque eles se veem todo dia na porta da escola esperando os filhos. Ou seja, ignorando a necessidade da maioria dos estrangeiros de ter em quem se apegar, os alemães só se aproximam mesmo das pessoas por afinidade e não pra "ser simpático e legal". 

O negócio é que, se tu quer encontrar um bom amigo, tu deve ir a lugares que tu gosta, lugares em que tu pode encontrar pessoas com gostos parecidos com os teus, e não simplesmente dizer "bom dia" pra quem passa e esperar que eles te amem e estejam dispostos a andar pra lá e pra cá com eles. Será que estou me fazendo entender? Acho que não, mas o negócio é simples e expõe minha visão geral desse papo de fazer amizade: bons amigos aparecem naturalmente, não surgem da noite pro dia e não são catados. Especialmente na Alemanha. 

Bis bald! 

Só pra mais uma vez registrar pro povo que não costuma acompanhar blogs e quer, por alguma misteriosa razão, ler todos os posts desse blog: olhe para o lado direito, há um espaço com o título "acompanhe por e-mail", ali tu coloca teu e-mail e, tã-ran, tu receberá os posts por e-mail. Que boniteza tecnológica, não?

5 comentários:

Pandora disse...

Eu fico me perguntando como os recifenses são... Aqui no meu bairro todo mundo conhece todo mundo,se você cumprimentar as pessoas elas também vão te achar mal educado e metido! Mas privacidade, essa palavra não faz sentido em Nova Descoberta e tenho a impressão que na cidade toda, recifense é meio tagarela e conversador.

Mas sim, eu também me surpreendi com as suas experiencias em relação as pessoas na Alemanha, a gente esperava mais frieza, mais distancia, assim quem sabe você voltaria para casa uma pessoa meiga ansiosa por abraços e demonstrações gratuitas de afeto. Mas os alemães estão sendo mais simpáticos que os caxienses então o que se pode fazer além de pensar que tudo o que nos disseram era mentira?!?!

Pandora disse...

*Se você não cumprimenta...

Lenise Bruna disse...

Ontem mesmo tava conversando sobre isso. Até na linguagem os alemães parecem ser grossos! hahah tenho muuuita vontade de falar a língua e de viajar pro país, mas vou terminar o inglês primeiro. Até porque, me disseram que a vida é curta demais pra se aprender alemão. Procede? rsrs Aqui no PI as pessoas são solícitas, amigas, dificil vc encontrar alguém fechado. Eu acho que estranharia chegar num lugar que as pessoas, por mais simpaticas que fossem, não dessem espaço pra uma amizade de verdade.

Blog: O silêncio não existe
FanPage: www.facebook.com.br/osilencionaoexiste
Beijos, Lenise

GrazieWecker disse...

Essa descrição aí mais ou menos fecha com a alemoada que conheço por aqui... Se dão bem, se cumprimentam e tudo mais, mas daí para fazer um alemão se apegar é uma história bem diferente. Talvez é genética mesmo. Ou herança cultural ainda dos antepassados.

Dayane Pereira disse...

A gente que é tudo mto caloroso na maioria das regiões do Brasil, sempre acha que as pessoas são frias em outros lugares, mas vc falou tudo, eles apenas tem uma visão diferente de "amizade" do que a gente.