Últimas andanças

sexta-feira, 31 de maio de 2013

No meu último dia em Dresden, demorei o máximo que pude pra sair do albergue. O check-out podia ser feito até o meio-dia, acabei saindo às 11h30, teria até enrolado mais se não tivessem ido limpar o quarto. Mas ok, quando sai, a chuva que vi quando acordei, tinha parado. Pude caminhar do albergue até o centro, vendo o que eu não tinha visto e fotografando o que eu não tinha fotografado. Sem mais fotos de Dresden aqui porque esse post já ficará longo sem elas. 

O negócio é que começou a chover e tive a genial ideia de me refugiar em um shopping. Não sei como demorei tanto pra me ligar disso. Quer dizer, é um lugar quente, com entrada gratuita e permanência ilimitada. Fiquei lá o quanto minha paciência deixou (porque eu não sou apegada a shoppings). Mas aí, andando de cá pra lá, achei uma livraria linda, gigantesca e com sofás adoráveis pra sentar e ler (coisa comum por aqui). Eu só queria mesmo sentar e ficar lá olhando pra tudo em geral, porque se eu parasse pra olhar livros seria tortura demais. Mas não me aguentei muito e acabei parando nas prateleiras costumeiras: Grisham, Irving, Hesse... E na do Hesse tinha uma coisa tão linda que eu não resisti a comprar: um livro com seleções do Udo Lindenberg dos livros do Hesse. Aí lendo a introdução, na qual ele explica que é apaixonado por Hesse, que ele se identificou absurdamente com Demian (meu caso), que fez uma canção fazendo referência a isso (e aí que eu lembrei que certa vez me emocionei identificando o nome “Hermann Hesse” numa música dele). E aí eu amei ainda mais o Udo e o Hesse e tive meu fim de tarde salvo. 

Fui direto pra estação de trem e lá fiquei por quase onze horas na sala de espera. Quando cheguei tinha um cara que acho que era turco, meio estranho, na sala. Aí ele saiu e entrou um bando de gente. Aí ele voltou e saiu o monte de gente. E ficou nessas de vai e vem a noite toda. Perto da meia-noite, um dos torcedores faceiros do Dresden, que venceu um jogo em casa naquela noite, veio pra sala de espera. Conversamos um pouco, concluímos que íamos pegar o mesmo trem e começamos a contagem regressiva do tempo que não passava. Ele saiu pra esticar as pernas e, em seguida, saiu um turco também. Como eu não conseguia dormir de jeito e maneira, me levantei e fiquei andando pela sala de espera. E o que acontece? 

(Suspense.) 

Me aparece o turco cercado de policiais. Justo quando eu tava pensando que nesses vai-e-vens dele, em que deixava malas ali, uma ia explodir e eu ia morrer num atentado terrorista (sem preconceitos, mas é que os turcos são realmente estranhos por aqui, eles se instalaram na Alemanha, mas parecem odiar os alemães – por exemplo, eles teimam em não aprender alemão e mandam seus filhos pra escola falando só turco. O que é legal nisso? Sem falar que uma vez vi uns guris de 20 e poucos anos no trem se oferecendo pra ajudar um senhor a carregar as malas gigantescas dele e da filha de uns dez anos e ele deu um corte tão grande nos guris, sem nem sinal de agradecimento, que eles ficaram quietos até o cara descer). Aí os policiais começaram a revistar as malas dele e eu fui sentar bem quietinha. Nisso chegou o torcedor do Dresden com um amigo, pediu se podíamos ficar ali, explicou que íamos pegar o trem das 4h23 e coisa e tal. Os policiais foram bem bacanas (não que eu, pessoalmente, tenha dialogado com eles). Não encontraram nada nas malas do turco e deixaram ele ali. 

Aí o turco começou a dormir, o segundo torcedor do Dresden também e só eu e o outro que não conseguíamos fazer o mesmo. Então chega um senhor, aí pelas 3h, senta e, em menos de 5 minutos, estava roncando monstruosamente. Tanto é que acordou o outro torcedor do Dresden. O negócio era rir pra não chorar. Aí se os torcedores falavam um pouco mais alto, o senhor acordava e, dois segundos depois, voltava a roncar alto. Obviamente que aí mesmo que eu não dormi. Mas enfim, veio o trem, eu cochilei um pouquinho, tive que trocar de trem e não dormi mais. 

Às 9h30 estava em Nürnberg. Não me perguntem como, foi quase tudo automático, mas arrumei um mapa, fui ver o estádio, voltei pro centro e fiquei andando atrás dos pontos marcados no mapa. Ah, sim, e chovia. Chovia e parava, chovia e parava. Mas cá estou viva, afinal. Nürnberg será mais contada por fotos do que por fatos. É uma cidade interessante, devo dizer. Todas aquelas construções de pedras dão um certo charme ao lugar. Três horas antes de meu trem pra Stuttgart partir, já estava na estação. Não sei como sobrevivi nesse dia. Praticamente não dormi e não comi, mas andarilhei e consegui ver bastante coisa até. Mas eu tava podre. Aí nessas, um carinha sentou do meu lado, conversamos um pouco e ele disse que já esteve no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro. No inverno. E achou as casas paulistas geladas. Vai pro sul no inverno, vai, guri. 

Esse texto está sendo rascunhado no trem, pra eu não esquecer nada e pra eu me ocupar. Quero chegar em casa, tomar um banho e um chá quente e dormir até mais não poder antes de começar a fazer algo útil da minha vida, como endereçar postais. Nem eu acredito que passei onze dias perambulando por aí. Eu devo ser mesmo louca. Tudo que sei é que, quando tirava os olhos dos mapas e andava meio à toa, eu me dizia coisas como: “E não é que tu tá mesmo andando pelas ruas de Hannover? Em algum momento, o Klaus Meine e o Rudolf Schenker devem ter passado por aqui e pensado ou debatido sobre os Scorpions” ou “O que mesmo que tu tá fazendo aqui?”. Enfim, foi feito. Conclusões gerais sobre a viagem mais adiante, quando eu a tiver assimilado de fato.

A história do Frankenstadion...

Que na segunda guerra foi usado por Hitler
e seu exército juvenil







Frauenkirche





Crepes de salame e queijo pra matar a fome.

Mais uma lambreta, Tita!











Miniatura da Frauenkirche



Eis um coro cantando embaixo de chuva. 



Rua dos direitos das pessoas.

Cada direito em uma língua.

Em português: "Direito à locomoção"

Richard Wagner


Estação bonita de Nürnberg
Bis bald!

Então, cheguei em casa viva e coisa e tal. Ontem teve sol, hoje chove que é uma desgraça. Vim até Sindelfingen, no McDonalds, pra dar notícias antes de sumir de fato. Com sorte, semana que vem consertam a internet lá da Gastfamilie. Oremos. Me vou. Aproveitando a solidão e a chuva, me farei batatas-fritas pra comer enquanto tomo cerveja. Vou me sossegar por uns dias...

3 comentários:

Pandora disse...

Eu também não gosto de shopings parecem artificiais, mas são um refugio com condicionador de ar, lugar para sentar e quase ninguém para encher. #Fato

Parabéns Ana você chegou ao fim de sua Odisseia agora que venham outras em outros tempos, em outros lugares com novos objetivos... Pena que para cada uma delas você dificilmente abrirá um blog, tem sido legal acompanhar tuas andanças!!!

Alê Lemos disse...

Igrejas são as obras arquitetonicas mais bonitas, mas aí na alemanha elas são demais. Meu amigo ta morrendo de inveja de vc por ter conhecido o tumulo do wagner. ele estava indignado que ninguem aki no BR fez uma homenagem a ele, a nao ser a globonews rss, por conta do centenario. bjus!

Bruna disse...

Que massa Ana!
Me deu vontade de andar por ai tambem, adoro essas construcoes enormes :)))

" Conclusões gerais sobre a viagem mais adiante, quando eu a tiver assimilado de fato."
Sei bem o que eh isso. ahaha

;*