Antes de voltar a posts tediosos

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Como disse no último post, meu segundo dia em Dresden foi salvo pelo Udo Lindenberg. Eu estava sentada na poltrona da livraria me perguntando o que diabos eu estava fazendo lá. O que eu estava fazendo dentro de uma livraria numa cidade que eu provavelmente não vou visitar tão cedo em vez de andarilhar. O que eu tinha na cabeça ao preferir passar a noite na estação pra pegar um trem de madrugada por ser mais barato em vez de ir mais tarde ou mais cedo pra Nürnberg. Ou por que eu decidi ir pra Böblingen direto? E concluindo que ter como meta conhecer estádios é uma meta podre na vida. 

Mas aí eu fui olhar a estante do Hesse e encontrei o Udo. Na introdução, ele disse que também teve sonho de conhecer cidades como Londres e Paris quando jovem, foi até elas e voltou sem descobrir o que queria. Então leu Demian do Hesse e disse com seus botões: “Esse cara disse tudo o que eu sinto sem que eu mesma consiga fazer isso”. E então me lembrei de como também adorei esse livro do Hesse e me identifiquei absurdamente com ele, especialmente por muito dos trechos lembrarem as conversas complexas e sem sentido que eu e um amigo temos e que só nós somos capazes de entender. 

“As coisas que vemos – continuou Pistórius com uma voz mais velada – são as mesmas coisas que temos dentro de nós. A única realidade é aquela que se contém dentro de nós, e se os homens vivem tão irrealmente é porque aceitam como realidade imagens exteriores e sufocam em si a voz do mundo inteiro. Também se pode ser feliz assim; mas quando se chega a conhecer o outro, torna-se impossível seguir o caminho da maioria. O caminho da maioria é fácil; o nosso penoso. Caminhemos.” (Demian, Hermann Hesse, p. 133) 

O negócio é que fui pra estação, não dormi, de alguma maneira sobrevivi a Nürnberg e cheguei em Böblingen. E aí? Tenho a impressão que muitos de vocês que acompanharam o blog estão achando isso mais maravilhoso que eu, porque eu, de fato, ainda não sei o que eu esperava encontrar. Mas já faz mais de semana que voltei e, aos poucos, vou assimilando as coisas e vendo que, de alguma forma, foi interessante. Os estádios ficaram pra escanteio, as cidades em que mais me senti bem foram as não turísticas e, como têm me dito, eu conheço mais lugares que muitos alemães. 

Mesmo não estando dando pulinhos e dizendo “Nossa, eu conheci tudo isso!”, eu estou satisfeita comigo mesma porque fiz o que eu queria fazer. As fotos que vocês viram, especialmente com a minha cara, foram, em maioria, tiradas pra dizer que eu turistei. Por mim tinha ficado apenas andando por lá e pronto. Nada de fotos. Mas ainda tem gente que vem e me diz: “Não desperdice teu tempo aí, vá conhecer outros países!” ou coisa do gênero. Lamento, pessoas, mas nunca tive a ambição de conhecer o mundo e toda a empolgação que muitos têm. Como vocês sabem, eu ando na contramão. 

“Mas vivo em meus sonhos e tu soubeste adivinhá-lo. A maioria das pessoas vive também em sonhos, mas não nos próprios, e aí é que está a diferença.” (Demian, He rmann Hesse,p. 135) 

Eu achava que era louca, mas aí, conversando com a minha professora de curso, que também não acha atrativo o programa de sair pra fazer compras, ela disse que pensa exatamente como eu. Disse ela: “Não conheço Viena e Praga, mas pra mim não interessa ficar uma ou duas semanas. O interessante é conhecer a cultura, não apenas olhar e ir embora”. Tal como eu, ela acha que ir lá, bater uma foto e dizer que conheceu, não é verdadeiramente conhecer. Talvez por isso eu tenha gostado tanto das cidades não-turísticas, porque nelas eu vi as pessoas correndo de lá pra cá, tomando seu café de todo dia, e não um monte de turistas aglomerados pra tirar fotos. Enfim, fotos com monumentos não me dizem nada. 

Em resumo, a viagem foi legal, sim, mas como diria o Raul ‘Calvin’ Furlanetto, se ela foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, que vida de merda a minha, hein? 

Pra quem não acompanhou todos os posts da viagem:

E agora voltamos à programação normal: nada de posts diários e mil fotos por dia. Bem menos que isso. Como continuo sem internet em casa, sabe-se lá quando será minha próxima aparição. Enquanto isso, o sol descobriu o caminho de Böblingen e eu tô lembrando dos verões passados em que ficava na beira da praia lendo um gigantesco e bom livro ao sol (“O tempo e o vento”, “Guerra e paz”, “O visconde de Bragelonne”...) da única maneira possível: passando protetor solar e me esticando no sol pra ler de short e regata. De fato, o sol faz falta (lembrando que sol não é sinônimo de calor, até porquê o sol nunca é melhor do que no inverno, aí sim ele é adorável).

Encerramos com a música que o Udo escreveu pra extravasar um pouco desse sentimento de viajante que só o Hesse soube transcrever:


Er wollte nach London 

Mit dreizehn ist er ersten Mal 
 Com treze anos, pela primeira vez, 
von zu Hause weggerrant, 
 ele fugiu de casa 
er wollte nach London und später nach Paris, 
ele queria ir a Londres e mais tarde a Paris 
das waren komische Gefühle, 
 era um estranho sentimento 
als er nachts an der Strasse stand, 
à noite estar na rua 
den Schlafsack unterm Arm 
com o saco de dormir embaixo do braço 
und dreissig Mark in der Hand. 
e trinta marcos na mão. 
Er rauchte viele Zigaretten 
Ele fumou muitos cigarros 
und dann wurd‘ es wieder heller 
e então amanheceu outra vez 
und morgens um sieben hatten sie ihn, 
e às sete horas da manhã eles o tiveram de volta, 
sein Alter war leider schneller. 
seu filho mais velho foi rápido. 

 Als er so um fünfzehn war, hat er’s noch mal versucht, 
Quando tinha quinze ano, ele tentou mais uma vez 
und dieses Mal hat’s hingehauen, 
 e dessa vez ele foi adiante 
da haben sie sehr geflucht 
aí eles brigaram muito. 
Als er drei Tage später den Eindruck hatte, 
Depois de três dias ele teve a impressão, 
dass er weit genug weg war, 
que já havia sido um longo caminho, 
hat er zu Hause angerufen
 ele ligou para casa 
und gesagt, er wär‘ alles klar. 
e disse que estava tudo bem. 
 Eingentlich war gar nichts klar, 
Na verdade não estava tudo bem 
und das Geld war auch schon alle 
e o dinheiro já tinha acabado 
und nun stand er da in irgendeiner kalten Bahnhofshalle. 
e então ele estava em alguma fria sala de estação de trem. 

 Er war in London, er war in Paris, 
 Ele esteve em Londres, ele esteve em Paris, 
er war in vielen grossen Städten, 
ele esteve em várias grandes cidades, 
er schlief auf harten Parkbänken 
ele dormiu em duros bancos de parques 
und auf weichen Wasserbetten, 
e sobre macias camas d‘água 
er spürte, dass er irgendwie auf der Suche war, 
 ele sentiu que de algum modo sua procura, 
doch was er eingentlich wollte, 
o que ele sempre realmente queria, 
das war ihm damals noch nicht klar. 
ainda não estava claro. 

 Inzwischen ist er neunzehn 
Entretanto ele tem dezenove 
und er weiss immer noch nicht so genau, 
e ainda não sabe ao certo 
was er denn nun davon halten soll, 
o que ele então deve representar, 
 von dieser ganzen Schau. 
nesse grande espetáculo. 
Vielen Sachen sieht er anders, 
Muitas coisas ele vê diferente, 
und er glaubtauch nicht mehr so daran, 
e ele já não crê mais então, 
dass er nur an der Umgebung liegt 
que apenas ele nas redondezas está parado 
vielleicht kommt es doch mehr auf einem selber an. 
talvez dependa apenas dele mesmo. 

 - Und nun liest er ein Buch von Hermann Hesse, 
 - E então ele leu um livro de Hermann Hesse 
und nun macht er Meditation, 
e então ele meditou 
doch er findet Jerry Cotton auch sehr stark, 
sim, ele também acha Jerry Cotton muito forte, 
und er lernt jetzt auch noch Saxophon... 
e agora ele está aprendendo Saxofone...


Bis bald!

7 comentários:

Ana Carolina Lima Da Rosa disse...

Confesso que estava sumida daqui, vou dar uma olhada nos posts que fala das suas viagens, devido meu computador estar literalmente sem condições de absolutamente nada e nem visitar os meus blogs eu conseguia *-* até qualquer hora então [:

Mia Sodré disse...

Nunca havia ouvido falar nesse livro; vou procurar saber sobre, gostei dos trechos.
Ah, também acho que conhecer um local não é apenas ir lá, visitar pontos turísticos, fotografar e mal interagir com as pessoas. Se você se cerca apenas de pessoas e coisas que lhe são "naturais", que advêm do seu país, então como poderá realmente conhecer outra cultura? É preciso conviver, entrar "de cabeça" para que haja um conhecimento, não apenas parar para ver.
Talvez por isso eu tenha vontade de conhecer pouquíssimos locais. Poucos me despertam a vontade de conhecimento.

Kissus ;*

Lúcia Soares disse...

Ana, a cada post me encanto com você. Somos muito parecidas nessa parte de não se interessar pelas coisas que a maioria das pessoas se interessa. Mas devemos aproveitar todas as boas oportunidades que nos aparecem, sempre. Embora não se deslumbre com viagens, aproveita a proximidade e visite as mais famosas, não para tirar foto para publicar, mas para guardá-las com você. Peguei a frase do Demian, para fazê-la circular um pouco. rs
Beijo!

Palavras Vagabundas disse...

Ana,
te visitando pr causa de Hesse, risos
Um autor que devia ser redescoberto, o li lá pela década de 70 e tenho ótimas lembranças. Uma ideia para um post e uma sugestão para uma releitura, obrigada.
bjs
Jussara

Alê Lemos disse...

Gostei da citação do Hesse. Também não quero conhcer o mundo todo rs mas gostaria de conhecer alguns países como a Inglaterra, a Espanha a França e a Grécia. Talvez Italia tb, mas só se desse, o resto é obrigação kkk. Concordo com essa visao de que conhecer a cultura não é fazer compras apenas. O melhor jeito de viajar é conhecer alguem nativo e essa pessoa te apresentar a cidade. O olhar dela sobre a própria cultura é q revela o modo como as pessoas de lá pensam.

Pandora disse...

Ontem eu passei o dia inteiro pensando em "Steh auf, wenn du am Boden bist" para me fortalecer enquanto orava e orava!!!

E porque começar o comentário dizendo isso não sei... Mas, sei lá cada um deve viver seus sonhos e não o dos outros... Mas sobretudo deve viver e acho que você viveu coisas boas, com certeza não foi a melhor coisa da sua vida talvez tenha sido a melhor coisa dos últimos dois anos, mas virão outros dois anos, três, dez...

Enfim, foi bom enquanto durou os posts quase diários e a sensação de está acompanhando uma aventura de descoberta!!!

Cheros Ana... Até o próximo encontro.

Tita disse...

Li muito Hermann Hesse e ele me influenciou muito nas ideias de liberdade e de espírito aventureiro que me acompanham até hoje. Apesar de não ser tão conhecido, o livro Caminhada, com as singelas aquarelas sempre foi meu preferido, sendo relido incontáveis vezes.
Mas depois de ler Henry Miller eu mudei muito. Notei que, influenciada por Hermann Hesse, a gente fica muito observadora. Ok, isso é bom para a gente analisar as coisas, poder emitir uma opinião. Mas acabamos não ficando participantes da vida, acabamos nos colocando sempre no papel de espectador, numa postura excessivamente distanciada do que está ao nosso redor, do que está acontecendo.
Me parece que você está agindo assim nesse momento da tua vida. Você descreve os locais, conta o que esperava e a tua impressão. Mas fala pouco das pessoas que conhece. Não noto uma real aproximação com as pessoas, com a cultura local, uma real vivência dos hábitos do lugar que está conhecendo. Talvez por isso não se interesse tanto por conhecer novos lugares e achar que não vai encontrar nada de novo. E por isso acabe se interessando mais por cidades não turísticas, onde não existem atrativos que desviem a atenção das pessoas do lugar.
Cuidado pra não virar um lobo da estepe :/ Busque as pessoas comuns, treine teu alemão para descobrir o que as move, histórias do dia-a-dia de cada lugar, o que faz pulsar cada cidade por onde passa. Tem que sentar numa cafeteria ou banco de praça e puxar papo na maior cara-de-pau com o povo :) Pelo menos é o que eu faria! kkk Mas isso é claro que vcs já sabem.