Wind of change

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Eu sou mesmo um ser atrasado no tempo. No mínimo uns dez anos. Atrasado mesmo. Sempre acabo indo contra o que a maioria, especialmente da minha idade, quer. Como por exemplo essa questão de protestos. Realmente não acho certo esse grito contra a Copa. Por quê? Porque a Copa não é a culpada. Porque os problemas pelos quais temos que lutar no Brasil são anteriores a ela. Porque agora o dinheiro já foi investido e, mesmo que minimamente, mesmo que só pro vendedor de sorvete da esquina, ela vai trazer algum benefício. Porque se ela for cancelada aí sim foi dinheiro jogado pelo ralo. Porque acredito que nossos problemas são nossos. Porque os que vão visitar o Brasil não tem culpa de nada, nem os jogadores. Porque assumimos um compromisso e, sendo que já temos famas de festeiros, cancelar um evento desse porte só esculhambará mais nossa imagem. Porque a imagem que o exterior tem é do Brasil-povo, não do Brasil-governo.

Acho que a forma com que eu fui criada pode ter uma influência, mas acho que vai mais da minha natureza e das observações e leituras que fiz ao longo do tempo. Mais de uma vez comentei aqui que meu ano passado foi negro, nunca entro em detalhes pelo mesmo motivo que passei o ano com muitas pessoas que ignoravam tudo que se passava na minha cabeça num dos momentos mais angustiantes que passei até aqui: porque falar só passaria a angústia adiante, pra pessoas que poderiam fazer menos ainda do que eu fazia. Imagino que muitas pessoas, quando veem eu comentando que meu 2012 foi podre, se perguntem: "Mas será mesmo?", e isso me deixa até feliz, porque mostra que não deixei meus problemas afetarem minhas responsabilidades com meus colegas de trabalho e universidade. Afinal, "as outras pessoas não têm culpa pelos teus problemas", como uma amiga me ensinou. Fiz o possível para me manter paciente com pessoas que vinham reclamar de seus problemas fúteis e me alegrei com as pessoas que estavam felizes por coisas simples. 

Fazendo uma alusão simples, acho que o Brasil tem sim que correr atrás de mudanças, protestar (DE FORMA PACÍFICA) e forçar atitudes dos nossos governantes. O que eu não quero é que a Copa seja a base de tudo. Bem sabemos que a corrupção brasileira, a fome, a saúde e a educação miseráveis são anteriores a ela. Sim, foi um absurdo um país com tantas necessidades internas querer se mostrar assim para o mundo, mas agora está feito. O dinheiro já foi gasto nos estádios, não foi? Também não quero que essa indignação acabe com a Copa das Confederações ou a Copa do Mundo, e muito menos que as mudanças se limitem ao governo. Quer dizer, meu pai sempre disse que cada povo tem o governo que merece, que os representantes são um reflexo da boa ou má sociedade que temos. Vejo que isso é verdade quando penso na educação. Sim, o governo tem boa parte da culpa pela educação miserável que temos, mas outro dos grandes problemas que os professores enfrentam todos os dias é a falta de valorização da sociedade em si. Um professor que tem 30 alunos, chama os pais para uma reunião e recebe 10 para a mesma deve se considerar sortudo, já que hoje em dia muitos pais mandam os filhos pra escola simplesmente pra ter um pouco de sossego ou pra ganhar uma ajuda do governo, não porque realmente achem importante. Quantos pais realmente acompanham a vida escolar dos filhos? Isso não é culpa do governo, é uma falha cultural. E, se alguns políticos veem educadores como profissionais que lutam apenas por amor ao ato de ensinar, a sociedade os chama de "coitadinhos" e sempre fica ressabiado quando alguém da família quer seguir esse caminho. O que quero dizer é: não adianta protestar só com o governo se não repensarmos nossas próprias ideias e atitudes diárias.

Um exemplo disso é a pergunta: Pelo que estamos lutando? Nos últimos dias li e vi coisas sobre os protestos que me deixaram um tanto confusa. Apesar de eu não achar bonito que a gota d'água tenha sido o aumento da passagem de ônibus com tantos outros problemas maiores que aconteceram recentemente, eu entendo. E, independentemente do que seja, é bom que tenhamos chegado à gota que fez transbordar o copo. O que eu não consigo entender é porquê alguns teimam em apertar a tecla da passagem de ônibus e da Copa. Quer dizer, chegamos finalmente na hora de invadir às ruas e isso é o máximo pelo que gritamos? E a educação, que será responsável por uma mudança positivíssima no país a longo prazo - e, portanto, quanto mais a deixarmos de canto, pior será? E as pessoas que morrem esperando tratamentos para problemas de saúde? E as pessoas que deixam de ir e vir por medo da violência? Quer dizer, se protestarmos por isso agora, mais adiante não teremos que enfrentar uma Copa indesejada e aumentos absurdos. 

E a destruição do patrimônio, seja ele público ou privado? No que ele ajuda? E o fogo? E a violência policial? Em que época estamos, afinal? Isso é uma luta por um país melhor ou simplesmente mais uma baderna brasileira? Cheguei até a ver que a destruição de certas coisas tem significados. Eis outro dos sinais de que estou atrasada no tempo: acredito que só se faz pros outros o que tu gostaria que fizessem contigo; que destruir algo, seja de quem for, é algo sem sentido algum; que no momento que tu imita a ignorância que fizeram contigo, tu perde muita da razão. Enfim, eu penso tanta coisa, mas tanta coisa ultrapassada. Devo mesmo é estar errada. Não quero que me critiquem, me deem conselhos ou me apoiem, quero só que esse post fique de registro. É a minha opinião, simples assim, e não vou mudá-la porque, de alguma forma, eu continuo vendo alguma lógica nela. Talvez porque eu tenha seguido assim minha vida e, até o momento, tenha dado certo. 

Não vou levantar mais debates, expor minha opinião aqui ou em qualquer outro lugar virtual porque seria repetir a mesma coisa sempre. Minha intenção é simplesmente registrar: eu quero um país melhor, apoio que se protestem, só acho que somos um país imenso e, se não chegarmos a um senso comum do que queremos, esse momento será jogado no lixo. Já peço desculpas pela minha tola, inocente e antiquada forma de ver o mundo, mas peço que entendam. Se não entendem, que respeitem. 

A Alemanha está cheia de protestos brasileiros. Amanhã ocorrerá um em Stuttgart. Como já ia pra lá pro encontro de Au Pairs, vou tentar dar uma passada e ver o que acontecerá. Espero mesmo que todos esses gritos não sejam desperdiçados. 

"O futuro está no ar
Posso senti-lo em todo lugar
Soprando com o vento da mudança"

(Wind of Change - Scorpions, música-hino da queda do muro de Berlin)

 

Bis bald!

4 comentários:

Otávio Machado disse...

(Parte 1)
Ana, tua visão não é de modo algum ultrapassada, mas eu creio que em algumas coisas tu acabas tendo uma visão unilateral, crias tua opinião e pronto, acabou, quando as coisas não são bem assim. Eu sei que essa é a tua opinião, "não vai mudar", e que tu não escreveste pra discutir, só pra registrar, mas eu queria comentar alguns pontos do teu "desabafo" aqui no blog. Pode ser? Em clima informal, mesmo, porque daqui a cinco minutos o que eu falar aqui, como a minha opinião, pode mudar totalmente: vamos pensar, conversar, entender as coisas e aprendermos uns com os outros!
Estou numa situação parecida com a tua, né? Vivendo noutro lugar, vendo o que a internet me permite ver e sabendo das coisas através da boca - e, consequentemente, opinião - das pessoas.

Vou tentar seguir a ordem das coisas que tu falaste no post, pode ser?

- "Realmente não acho certo esse grito contra a Copa. (...)"
Eu sei. Em muitos pontos, também não acho certo. Não concordo com a entrada dos manifestantes no hotel do representante da FIFA no Brasil, não acho certo ficarem enchendo o saco das seleções, que não têm nada a ver com o Brasil.
Mas existem coisas que me deixam encucado. Discussões que vêm das copas anteriores, de pessoas que não são daqui e falam dos resultados de uma Copa do Mundo.
Concordo contigo quando tu dizes que agora o dinheiro já está gasto, e é melhor que o Brasil sedie a Copa do Mundo, pra obter ao menos um lucro em meio a todos esses gastos. Mas é importante saber de onde veio o dinheiro, de repente, de um governo que não o tinha para investir em saúde pública e educação, para construir estádios. É importante frisar que, após a Copa, não queremos que mais investimento seja feito para mantê-los, que há prioridades maiores, e que a desapropriação de casas e terrenos para vilas, museus e espaços olímpicos NÃO pode continuar. É importante manifestações contra o presidente da FIFA, que acha que pode brincar de gato e sapato com o Brasil, e fazer o que bem quiser pela Copa.
Li em algum lugar algo parecido: "O vendedor de Sorvetes vai ter uma boa semana, é claro. Mas quem garante que os lucros da copa nos garantirão uma melhor qualidade de vida? Esse dinheiro vai, em imensa parte, direto para os bolsos da FIFA e de um número minúsculo de bolsos, já cheios de dinheiro."

- "(...) só esculhambará mais nossa imagem."
E tu não acha que é com isso que o povo tem que jogar? É óbvio que isso vai acabar com nossa imagem perante o resto do mundo! Você acha que o governo quer arriscar isso? CLARO QUE NÃO! Isso implica numa perda de dinheiro, de status, numa queda da nossa moeda, queda no turismo! Eles não podem arriscar a perda dessa imagem que o Brasil tem tido nos últimos tempos para o resto do mundo.

Otávio Machado disse...

(Parte 2)
- "Um exemplo disso é a pergunta: Pelo que estamos lutando?"
É bem verdade, muita gente não sabe pelo que está lutando. Mas esse é o lado ruim da situação! Tente ver isso de um jeito otimista: não sabemos pelo que estamos lutando, mas estamos cansados do que o Governo nos empurra goela abaixo! Temos um grupo GIGANTESCO de pessoas saturadas com a falta de respeito, que tem vontade de lutar por alguma coisa - e os manifestantes experientes, esses que sabem o que querem mudar, que têm anos de estudo e de sabedoria no assunto, ao invés de virarem às costas aos novatos, deveriam ajudar a politizá-los e ajudar a encontrar causas comuns. Deveriam liderá-los, direcioná-los!

- "(...) Isso é uma luta por um país melhor ou simplesmente mais uma baderna brasileira?"
Tu sabes que Brasileiro é barata-tonta, é confuso e qualquer motivo vira motivo pra baderna, seja na favela ou no Senado. Mas o Movimento de Manifestações tem menos de uma semana, é novo e inconsequente, e ainda precisa de tempo para amadurecer. Dê tempo ao tempo.
Não sou a favor de manifestações violentas, destruição, fogo e violência. Inclusive, isso mancha o movimento.


Espero que eu tenha me feito entender de alguma forma no que eu quis dizer, e também queria enfatizar que a tua opinião é MUITO válida e tu não estás ultrapassada. (As opiniões gerais são, também, muito semelhantes à tua!)

Abraços Lusitanos!

Lúcia Soares disse...

Ana, querida menina, que orgulho de você!
Vou compartilhar seu post no Facebook, pois ele tem que ser muito, muito lido.
Sou sua fã.
Beijo!

Pandora disse...

Ana, pensei e repensei se deveria mesmo comentar nesse post, mas eu também quero registra algo e vou usar seu espaço para isso já que você não está aberta a debates vou apenas registrar.

O recifense Chico Science cantou há alguns anos atrás uma coisa que acho valida para esse momento: "Da lama ao caos, do caos à lama/ Um homem roubado nunca se engana" (https://www.youtube.com/watch?v=0dBV27_7AiU).

Para os desqualificados, massacrados, os invisíveis, o povo de lama e fumaça, cuja força está do outro lado da fraqueza momentos como esse são únicos... Acontece uma ou duas vezes em cada século e costumam mudar tudo... Da última vez que algo assim aconteceu os deputados e senadores foram obrigados a votar uma lei no domingo, a menor lei da história brasileira, a lei que acabou com a escravidão no Brasil e a elite teve tanto medo dessa onda que abafou esse capitulo da história.

Não sei qual o destino desse nosso momento, se ele vai ser abafado e o que ele nos trará, mas estou feliz por ele.

Quanto a destruição... francamente o patrimônio público muitas vezes nem é de uso público e em si já é sucateado pela falta de manutenção que os poderes públicos legam a ele. Talvez essa onda faça até bem, pois é capaz de incentivar uma onda de reformas verdadeiras e não de mentirinha como realmente ocorre, aliás, a segunda guerra destruiu bem mais a Alemanha e você viu como foi possível reconstruir tudo. Aliás 2, eu desconfio que quando os franceses invadiram Bastilha, o Palácio do Louvre e guilhotinaram a Rainha eles também foram chamados de vândalos por alguns, hoje eles são os revolucionários da Revolução Francesa, o Louvre é um museu que guarda coisas que são patrimonios da humanidade.

E sim, quanto ao patrimônio privado, as grandes lojas, bancos e derivativos possuem uma coisa chamada seguro, eles também vão sobreviver.

E a época na qual vivemos é uma época na qual os pouco que tem muito ainda conservam o velho medo da multidão, eles descobrem absurdados e em pânico que nós não somos mulambos, não somos bons pedaços de pano para se costurar mentira e diante dessa descoberta tentam cobrir as pessoas de porrada, bem, porrada não assusta certo tipo de pessoa.

E sim, eu não sou moderna, eu sou ainda mais antiga que você, eu acredito na mesma coisa que os abolicionistas do século XIX que se infiltravam em senzalas para libertar escravos (isso era possível porque havia abolicionistas de todas as cores), montavam quilombo próximo a cidade, escondiam escravo fugido, faziam vaquinha para comprar alforria de família escrava, comício na Boa Vista (bairro senhorial recifense, podre de chique na época)e eram chamados de baderneiros, arruaceiros, vândalos pelos senhores de engenho acreditavam: "É possível construir um mundo mais justo!".