I'll be back

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Antes da viagem me perguntaram se tinha chance de eu desistir da viagem. Devo dizer que eu mesmo me surpreendi com o "não" rápido e firme que foi minha resposta. "Mas eu volto", disse, enquanto todos ao meu redor diziam que tinham certeza que eu ficaria por aqui mesmo. Chego aqui e, quando digo que volto pro Brasil em fim de dezembro, todos perguntam "Por quê?". Já outros levantam a hipótese de eu "encontrar o homem certo" e ficar por aqui mesmo. 

A verdade é que em nenhum momento eu pensei em não voltar. Há tempos que quero escrever sobre isso, mas as pessoas tinham tanta certeza de que que ia querer ficar por aqui, que eu desconfiei de mim mesma. Bom, hoje faz exatamente seis meses que estou aqui. Daqui seis meses, espero estar no Brasil. Espero, não, vou estar. Continuo querendo voltar. 

Por quê? A pergunta é: "Por que eu deveria ficar?". Os alemães são as melhores pessoas do mundo, inacreditavelmente simpáticos e o país é lindo. Mas não é o meu país. Não é que eu seja uma apaixonada pelo Brasil, mas eu gosto do aconchego do meu estado. Inverno pra mim é lareira, pinhão e baralho (minha mãe quase chorou quando eu disse isso); não gosto dessa mania de casa ultra-mega-aquecida; não gosto de não poder escancarar janelas e nem de não conseguir falar o que eu quero falar. 

Porque sim, por mais que os alemães consigam me entender e eu os entenda relativamente bem, meu alemão continua sendo infame, pelo simples fato de que não se aprende uma língua magnificamente bem de um dia para o outro, precisaria de anos aqui e muito estudo (ou, no meu caso, leitura). Quer dizer, as aulas de português sempre foram grego pra mim, ia bem porque meu cérebro aprendeu lendo. E só agora eu tô pegando o ritmo da leitura em alemão... 

Além do mais, pra eu ficar aqui, ou indo atrás de um visto pra estudar aqui mais um ano ou arrumar um marido. Não, obrigada, além de achar um ano suficiente (mais do que algum dia pretendi), não acho lógico ficar mendigando moradia se tenho uma casa pra qual voltar. Uma casa que tem inverno com lareira, pinhão e baralho. E gente pra me tomar comigo chimarrão. Sem falar na minha nóia pela música nacional, especialmente no que se refere a rock gaúcho.

Muitas gurias vêm pra cá com a intenção de ficar. Por exemplo, a Gastfamilie teve uma Au Pair russa que só andava de minissaia e decotão procurando homem. Achou. Está aqui há anos e o alemão dela (pelo menos escrito) não é lá essas coisas. Sem contar que ando conhecendo muitas gurias da Ucrânia que se encontram com homens que conheceram na internet  ou ficam fazendo charme por aí. Desculpa, gente, mas casar por interesse não é comigo. E por mais problemas que o Brasil tenha, com uma cultura geral que inúmeras vezes me revolta (como o desinteresse pela educação), é o meu país. 

Obviamente que isso é mais uma prova de que eu ando na contramão do resto do universo. Tem muita gente que diz que não quer mais voltar a morar no Brasil. É por isso que acho irônico esses protestos internacionais. Se não a maioria, muitas dos brasileiros que foram protestar nas ruas de outros países, dizem que não querem voltar. Aí é fácil. É fácil dizer que nosso país precisa melhorar e viver num "país de 1º mundo". Como muitos me disseram por aqui "Aprenda o que de melhor a Alemanha tem pra te ensinar e depois volte pro Brasil e tente repassar essas coisas adiante". O que quero dizer é que acho estupidez se orgulhar em dizer que jamais voltará ao seu país de origem. 

Lembro dos genias Tim Maia e Roger Moreira que foram atrás do seu sonho americano. Ficaram um ano nos EUA (cada um em seu tempo) e deduziram que jamais poderiam ter uma vida decente ali. Eram só estrangeiros. Jamais conseguiriam um trabalho que não fosse de faxineiro ou coisa do tipo, que dirá viver de música. Aí lembro dos meus amados e odiados personagens literários. Floriano Terra Cambará voltou a Santa Fé para "terminar de nascer", T. S. Garp viajou para a Áustria para ter experiências de vida para então poder escrever ao voltar aos EUA. E o que falar de Santos Dumont? Marcou seu nome no mundo depois de anos andando por Paris e voltou pra Minas Gerais, onde morreu.

Ok, talvez eu esteja desviando um pouco do caminho. O que quero dizer é que não entendo essa surpresa quando digo que vou voltar. Por que eu não voltaria? Meu principal objetivo aqui - buscar sossego - foi alcançado. Estou conhecendo a cultura alemã como queria e conheci muitas cidades sobre as quais ouvia falar. O que mais eu quero? Se houver outra oportunidade, quem sabe eu volte. Ao menos pra visita. Morar definitividade aqui? Não, obrigada. Podem chamar de saudades, se quiserem, mas pra mim é mera lógica e apego a certas manias, a certas pessoas. 

Preciso voltar a assistir jogos no domingo com o meu mestre futebolístico e avô de coração; aprender nomes de dinossauros com o meu Gurizinho; ver shows do Tenente Cascavel e do Identidade com amigos; jogar baralho com meu tio e meu avô enquanto como pinhão do lado da lareira e meu tio me ensina sobre música gaúcha; ficar resmungando com meu pai; fazer Nega Maluca pro meu irmão e bolo de coco pra minha mãe; xingar os morros de Caxias e etc e tal. Sem contar as visitas aos amigos virtuais espalhados pelo Brasil que estou devendo (aliás, é uma pilantragem eu conhecer mais cidades da Alemanha do que do Brasil). E eu realmente preciso ver um show do Erasmo e um do Ultraje pra ser feliz de fato. 

Diria o Exterminador: "I'll be back". Diria José Mendes: "Pra voltar, volto depressa, sei de cor o meu caminho. Quem apaga o próprio rastro, acaba sempre sozinho".  Cantaria Vitor Ramil os versos de João Cunha Vargas: "Eu vou voltar pra querência, lugar onde fui parido".


Bis bald!

5 comentários:

Unknown disse...

Nada como a nossa casa Aninha!!!!

Mas eu achei que vc fosse encontrar um príncipe encantado alemão por aí, quem sabe nos próximos meses, ou melhor não, já que vc vai voltar mesmo e namoro a distância é ruim! rsrsrs

Bjs, Mi

Dayane Pereira disse...

Que bonito Ana!
Não é mesmo a sua cara querer ficar na Alemanha só pq é um país mil vezes mais avançado que o Brasil, arrumar alguém pra dividir despesas só pra viver esta aventura. Você tem raiz aqui e dá valor á isso. Mto bonito! :)

Ana Caroline Guarnieri disse...

Lindo Ana!! Perfeito!! Me emocionei com o teu texto e assino embaixo de tudo o que você escreveu!
Bom saber que eu não estou sozinha nessa, que não sou uma alienígena!! Volto p França em setembro p fazer o que vim fazer (dois anos de mestrado) e depois volto correndo p Brasil, p minha terra, sem mesmo piscar!
Vamos marcar um mate juntas na volta...mas por enquanto, o espírito é esse mesmo - aproveitar o que a Europa tem de melhor a nos oferecer e depois voltar ao pago com novas ideias p tentar melhorar esse país que é nosso!
Bjão e te cuida por aí!! ps.: ainda quero te visitar na Alemanha :)

Pandora disse...

Ana, decididamente esse post não me surpreende em nada... E na verdade esse povo que fica falando em casamento com um alemão mesmo de brincadeira irrita, você sabe!

É aquela coisa: "Não existe lugar como nosso lar!" As vezes acontece de pessoas não terem realmente um lar no Brasil, não tem essas pessoas que você tem, essa vida agridoce, e então vão para outro país e encontram amigos, sonhos, um lar e não querem voltar... Pelo o que você escreveu ai, você tem um lar aqui, ou melhor, na Serra Gaúcha e quer voltar a ele.

A proposito, eu te mostrei o poema "Instruções" de Neil Gaiman? Se não da uma passada aqui e confere, talvez você goste: http://elfpandora.blogspot.com.br/2013/05/instrucoes.html

Lúcia Soares disse...

Volta, sim, Ana.
E viaje sempre que puder, quiser ou precisar.
O mundo é nosso, mas cada um tem seu lugar de coração.
Dou o maior valor à família, à convivência.
Muitos se adaptam, ou precisam viver longe, mas deixam o coração onde estão as pessoas amadas.
Aqueles que têm o espírito aventureiro, não conseguem ficar quietos, não têm apego a lugares, enfim, gostam de viver assim, mas crio que são minoria.
E, sabe o que mais? Você pode se dar o direito de querer voltar, agora, e retornar para aí, ou outro lugar, na hora que quiser. O mundo se descortina para você, faça o que seu coração mandar, sempre.
Beijo!