A educação na Alemanha

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Saí do Brasil com o intuito de visitar uma escola ou de alguma outra forma me aprofundar mais no sistema de ensino daqui. Acabei não fazendo isso, fora o que o dia a dia com os guris me mostrou. A educação aqui é muito, mas muito diferente da brasileira, não apenas o sistema em si, mas o modo como é visto pelas famílias. 

Sempre digo que um dos maiores problemas que a educação brasileira tem é a falta de valorização da sociedade. Quando digo isso penso em pais que não acompanham a vida escolar dos filhos e estudantes que fazem qualquer negócio pra não ir à aula (mais ainda no ensino médio e faculdade). Não vou dizer que as crianças aqui amam a escola porque obviamente não é verdade, mas os pais se preocupam em comparecer às reuniões e outros eventos escolares. Além disso, normalmente um dos pais ou avôs leva e busca as crianças na escola. 

Aqui o ano letivo começa em setembro e vai até julho, sendo que há férias de uma ou duas semanas a cada seis semanas, em média, e as férias de verão tem duração de um mês e meio. São férias de Natal, de carnaval, de Páscoa, de Primavera, de Outono... Acho isso legal, porque aí não fica muito pesado pras crianças e também por não haver férias de quase três meses (tempo demais!). Fiquei sabendo pelos guris que, num dia normal de aula, eles têm dois intervalos: um de dez minutos e outro de quinze, depois de uma hora e meia de aula ou algo assim.

Mas vamos ao sistema em si. O Jardim de Infância ou Escolinha é Kindergarten aqui. As crianças frequentam em média dos 3 aos 6 anos. No último ano deles, há projetos especiais para que se acostumem com a ideia de ir pra escola, como ir lá uma vez por semana ouvir uma história lida por um aluno de lá ou passar a noite na escolinha (preparação para os aniversários em que se posa na casa dos amigos). Há programações especiais como os pais irem brincar um dia com os filhos, no outro a mãe, uma festa de outono no fim de semana e coisa e tal.

No primeiro dia de escola, a Grundschule, onde eles ficam até os 10 anos - a nossa 4ª série, há uma cerimônia especial e as crianças recebem um cone enorme cheio de doces. É uma maneira de animá-los para essa nova fase. Não posso dar detalhes de como funciona em si o ensino, porquê realmente não sei ao certo. Se não estou enganada, no primeiro e segundo ano os alunos recebem notas por alemão e matemática apenas, além de um parecer descritivo. No terceiro e quarto já há notas para inglês e religião, por exemplo. E eles tem um único professor, tal como no Brasil, com exceção de música e inglês - se não me falha a memória. 

Sobre o material: eles não tem cadernos. Ou ao menos não como os nossos. Eles tem um caderno pra caligrafia e um de folhas quadriculadas pra matemática, fora isso eles tem pastas. São pastas tipo fichários, onde as crianças vão colocando as folhas de atividades com dois furinhos. Ah, e eles tem livros consumíveis. Ou seja, eles fazem as atividades ali mesmo. Um negócio que me impressiona é a matemática. O guri do meio tá na 3ª série. Às vezes fico com ele enquanto faz o tema e nunca, NUNCA, vi ele montar uma conta ou desenhar palitinhos pra contar. Ou ele é um gênio ou o ensino de matemática aqui é um milagre, porque as crianças fazem de cabeça e os exercícios não exigem que a conta seja montada - aliás, nunca vi uma conta montada nos livros. 

Bom, quando acaba a 4ª série é que o negócio muda mesmo em comparação ao Brasil. As crianças podem seguir uma das três opções: Gymnasium, que dura nove anos e prepara pro Abitur (que nada mais é que o vestibular); Hauptschule, com duração de seis anos e prepara pra cursos técnicos mais elaborados; e a Realschule, que dura de quatro a seis anos e prepara pra uma escola técnica, a Berufschule. Há um tempo atrás esses caminhos não eram muito opcionais - dependiam das notas na Grundschule, mas hoje, ao que parece, não há mais essa exigência. 

Devo dizer que quando aprendi sobre isso no meu curso de alemão no Brasil, dessa avaliação de notas tão cedo, eu achei um absurdo, mas depois fui pensar e não é tão terrível assim (a menos em casos em que a criança sonha com uma faculdade e lhe dizem um gigantesco "não" na cara). Quer dizer, tem muita gente que prefere mais a coisa prática do que teórica e qual é o problema nisso? O problema nisso é que há seres que acham que alguém que faz um curso técnico em vez de uma faculdade é menos inteligente (e isso eu ouvi aqui). Mas, pera lá, quem aí vive sem um técnico? Um mecânico, um eletricista... E quem não gosta de achar um que seja realmente de confiança e saiba o que faz? Aliás, pelo pessoal que muitas vezes vejo na faculdade, acho que tem muito pedreiro sem diploma que sabe mais do seu trabalho do que quem passou anos na universidade. 

Mas enfim, vou controlar minha tendência a debater educação. Voltamos à Alemanha. Não posso falar das outras escolas, mas posso compartilhar a entrada do mais velho dos guris no Ginásio. Um dia antes das aulas oficialmente começarem, os alunos do 6º ano (novatos do ano anterior) receberam os do 5º com apresentações musicais, já que no Ginásio é obrigatório o aprendizado de um instrumento ou entrada no coro. Achei isso muito bacana. Eles trazem o instrumento pra casa e tudo. E, sim, é uma escola pública. Porém há outros tipos de escola, lembro que a Gastmutter visitou vários com o mais velho antes de escolherem, desde só pra gurias a ginásios com uma grade curricular especial - e, talvez, exaustiva. 

Vale também dizer que aqui as escolas, em geral, só funcionam no turno da manhã, não existe essa de ter aula só de tarde. O que há é o Mittagschule, que seria um dia em que a escola é período integral, manhã e tarde (geralmente até umas 16h). E o que as crianças fazem fora da escola? Muitas atividades (música, esporte...) e recebem e visitam amigos pra brincar. Televisão, em geral, só no final de semana. Mas aí vale levar em consideração que muitas mulheres não trabalham ou trabalham só meio turno, então estão disponíveis pra levar e buscar os filhos pra tudo que é lado (ou têm uma au pair que ajude nisso), não existe essa de criança sozinha em casa ou sei lá. Devo dizer que, se por um lado isso é bom pra tirar a alienação das crianças, por outro é negativo - justamente por haver tantas donas de casa e mesmo porque as crianças não são obrigadas pelo dia a dia a se virarem sozinhas já que tem sempre alguém por perto. 

Sim, acho que falta muito nesse post, mas eu também não sei muito mais, sem contar que educação em si é um tema bastante complicado, seja onde for, só no dia a dia pra entender mesmo como funciona. Mas pelo menos dá pra ter uma ideia, hein? E dá muito o que discutir - pontos bons e ruins. Isso deixo pra vocês.

Bis bald!

Mais sobre o sistema em si, vocês podem ler aqui

6 comentários:

Pandora disse...

Você sabe que quando a escola publica foi inventada no Brasil em 1822 a escola publica alemã já tinha uns 300 anos?!?! Tipo esse troço de escola publica estatal foi inventado por ai durante a reforma protestante (depois teve a revolução francesa que adicionou o laica a escola pública mais isso é outra faze da coisa) e eu tinha muita curiosidade de saber como eles fazem hoje, como chegaram ao século XXI e caraca que inveja. Nossa escola primaria ta engatinhando, desde o século XIX que todo "pedagogista" [palavra da época] sabe que música é importante, mas cadê a música na escola pública? Alfabetiza e numerizar os pirralhos é crucial, mas cadê isso na escola? Os meninos não fazem contas ou usam palitinhos porque já devem ter sido numerizados, possuem raciocínio matemático e a música ajuda nesse processo ou pelo menos foi o que ouvir lá no mestrado em educação... Putz, muita inveja branca da Alemanha, queria acorda um dia em um Brasil que fosse assim com as crianças... E sim, concordo com você em relação a escolha da carreira técnica ou cientifica, em sociedade precisamos de diversos tipos de profissionais e para que passar mil anos na universidade e ser infeliz... Enfim... matou um pouco minha curiosidade.

Family More disse...

acho que Kindergarten sozinho já é melhor do que toda a educação do brasil.

Post muito interessante Ana!

Allyne Araújo disse...

Já reparou que este sistema tem muita mais flexibilidade do que o nosso aqui no Brasil? Acho graça, porque brasileiro gosta de copiar o que vem dos americanos e não copia o que é da Europa com muito mais tradição, e mais irônico é perceber q nós ainda não criamos uma modelo nosso e eficaz, mesmo que ele possa ser derivado de uma ou de outras culturas. Que a educação engatinha aqui é verdade, e nem se compara ao que existe lá fora. Lá fora os alunos são educados a pensar e correr atrás, os daqui, e isso é triste, são treinados a entrar pro mercado de trabalho de segunda e se alienar na questão de que nada presta, ou de que isso é bom e fim de papo. Não há uma real valorização dos professores e da escola publica em geral, e eles vão nos testando como se fôssemos cobaias de uma experiência maluca, tipo no caso de trazer tanto a tecnologia pra sala de aula, mas não se importar com o tipo de qualificação profissional os alunos e o pessoal das escolas irão ter, por exemplo. Não sei como funcionam em outros lugares do Brasil, mas no Tocantins é bem isso q acontece. Tá, isso de vc poder escolher entre o ensino médio técnico, uma faculdade e/ou escola técnica é ótimo, mas ai a gente tem q parar pra pensar em uma coisinha pertinente... o Técnico esta atrelado ao saber intelectual, e vice e versa, que tipo de relação isso cria para a geração de desigualdade social, e que real conhecimento é dado em um e em outro, bem como se esta é uma otima solução. Poxa, isso da tema para TCC, e tese de mestrado. Pra mim, o melhor seria se o ensino fosse realizado das duas formas, mas como tudo é questão de acelerar as coisas, então vai virando essa bagunça como tá. Agora, o que eu digo, e tenho repetido muito por aí é que, a falta de ensino tá gerando um lote de pessoas tão estúpidas e im-pensantes, que não sabem de verdade o que querem, ou elas pensam no passado demais ou antecipam o futuro demais, sem contudo, pensar no que realmente acontece e que importa hoje na realidade brasileira. Bom, é isso. Gostei do texto!

O que tem na nossa estante disse...

Eu adorei o post Ana, muito interessante mesmo! Eu acho genial essa história de fazer contas de cabeça! Quanto ás diferenças, eu diria que tem muitos aspectos positivos e outros nem tanto assim, mas é muito de opinião pessoal, eu por exemplo não gosto muito do ensino técnico, primeiro pq na adolescência às vezes vc não sabe o que quer e pode fazer um técnico e depois descobrir que queria outra coisa, além disso, aqui no Brasil, pelo menos, muitos ensinos técnicos possuem qualidades duvidosas! O que muito provavelmente não deve acontecer na Alemanha! rs Mas enfim, adorei o post!

Bjs, Mi

Lúcia Soares disse...

Ana, fiquei confusa com essa sua colocação: "justamente por haver tantas donas de casa e mesmo porque as crianças não são obrigadas pelo dia a dia a se virarem sozinhas já que têm sempre alguém por perto."
Acho importante que as mãe fiquem em casa (sei de casos, aí na Alemanha, de mãe que trabalha fora - mais qualificada - e marido fica em casa com os filhos e faz todo o serviço habitualmente da mulher.Como aí não se tem babás (a não ser os de muito boa situação financeira), nem faxineiras, etc., e as mulheres se viram sozinhas para dar conta da casa, normalmente os filhos ajudam desde cedo e os maridos tb (funciona assim, na casa da sobrinha do marido, que mora aí). Pelo que vejo da vida dela, os filhos não têm boa vida demais, não. rs Se ainda não têm suas obrigações, desde cedo aprenderam a pelo menos se organizarem, o que já é uma boa ajuda.
Quanto ao ensino, está muito distante do nosso e é de acordo com a filosofia de vida deles, e é levado a sério, como deveria ser aqui tb. Um país com a educação em baixa é um Brasil, né não? rs Pois então, acho que tudo aí é muito legal, levado a sério, preparando as crianças para um bom futuro. O sobrinho-neto, de 15 anos, este ano tomou uma bomba escolar, acho que no que seria a nossa 8 série. Ele vinha capengando há uns anos, mas sempre passava, no sufoco. Este ano não deu e agora está repetindo.
Por menos que eu goste de admitir, Europa parece ser mesmo um outro mundo. Mas sem generalizar, há boas escolas aqui no Brasil, sim. Poucas? Mas, sim, elas existem.
Beijo e bom domingo.

Lúcia Soares disse...

Ah, tá. Esse final do comentário, nada a ver, não estamos fazendo comparação sobre o ensino, né? rs
Bj