Do que eu esqueci de registrar

sábado, 14 de dezembro de 2013

Lembram daquela minha foto de manga curta na neve? Muitos de vocês podem pensar que minha mãe, ao vê-la, iria começar a me xingar - como outros seres fizeram. Mas não, o que ela disse ao ver a foto foi: "Que lugar é esse?". Coitada, já desistiu de gritar no meu ouvido "Coloca um casaco!"

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Fui comentar com o meu pai do suspirador de Bremen e ele entrou em choque porque eu dormi em quartos coletivos mistos. Só então que fui lembrar que não tinha contado esse detalhe. Ele fez um discurso enorme de como eu deveria deixar de ser mão-de-vaca e arrumar hotéis mais decentes e com quartos femininos. 

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Na Alemanha há uma regra básica pra escadas/rampas rolantes: quem quer ficar parado, fica na direita. O espaço da esquerda é pra quem quer subir mais rápido. Na Feira do Livro de Frankfurt tinha até placa pra mostrar pros turistas que a regra é séria.


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Outro dia tive que caminhar uma hora pra achar a alfândega de Böblingen e resgatar um pacote de presentes que minha mãe mandou pros parentes em Berlin. Cheguei lá apavorada achando que ia ter que pagar pra retirar e tal, mas não só não me cobraram nada, como o cara disse que não sabe porque o pacote parou na alfândega. Minha suspeita é: o pacote era leve demais pelo tamanho e eles acharam que eram drogas.

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Essa foto tirei no hotel em Bonn. No meu curso de alemão no Brasil tinham me dito que os meninos são ensinados a fazerem xixi sentados pra não ter sujeira. De fato, o mais novo dos guris faz isso, mas os irmãos o estão ensinando como fazer em pé (segundo o pequeno, agora ele sabe "onde mirar"). Enfim, o negócio é que aqui não é tão bizarro pedir pra homens fazerem xixi sentados. Imaginem uma plaquinha dessas no Brasil...


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O inglês do bar me deu uma camiseta do Bayern e outra do Arsenal (time dele); a namorada dele me mandou uma touca - de uma cervejaria - porque em Berlin é frio e eu vou precisar de uma; e minha agente (de au pair - não vou virar modelo e nem publicar livro) me deu um livro do Thomas Mann com uma dedicatória linda que inclui frase do Hermann Hesse. De fato conheci gente legal demais aqui, não devo ser tão odiável.

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Nos últimos fins de semana me dediquei a conhecer Böblingen (ou melhor, fotografar o que eu não havia fotografado) - a necessidade de sair de casa e a falta de dinheiro me fizeram criar vergonha na cara. Vamos a algumas fotos bonitas:

Monumento ao regimento de Böblingen que lutou na guerra


Igreja principal da cidade



Prefeitura



Não, não é português, é italiano

Igreja Católica São Bonifácio

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Não me pergunte como isso é controlado, mas se bem entendi, aqui jovens de 16 anos podem comprar cerveja, mas só é permitido beber com 18. Sim, eu também não entendi a lógica. Mas enfim, outro dia fui comprar uma e a atendente pediu se eu tinha 16, eu disse que tinha 21. Ela não pediu documento de comprovação, só olhou pra cliente seguinte e as duas concordaram que eu parecia mais nova. Levando em conta que com meus 15 me davam 20, tá beleza.

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Quando tava voltando do show do Die Toten Hosen (se não me engano), vi dois guris com umas plaquetas de campanha política na estação dizendo que já estavam limpando a cidade. Entraram no mesmo trem que eu. Na parada seguinte, os policiais entraram no trem e os escoltaram pra fora com placas e tudo mais. 

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Das minhas tentativas de tirar fotos dos esquilos correndo pra cá e pra lá:


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Comprei outro dia uma luva térmica, já que os guris não paravam de sonhar com a nevasca e com o boneco de neve que íamos construir. Em uma semana me mando e nada de neve. Investimento à toa - ainda que foi das baratíssimas. 

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Cheguei aqui com uma mala - com a rodinha quebrada. Volto com duas - uma meus pais deixaram aqui com as alças quebradas. Coloquei as coisas mais leves na de rodinha quebrada e mandei consertar as alças da outra - que vai levar meus livros e CDs. Oremos para que não haja estragos. 

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Ah, é, o sapateiro que arrumou a mala. Um dia eu tava indo pro bar e ele me mandou voltar depois pra falar com ele. Achei que tinha dado porcaria e não tinha como consertar. Cheguei lá e ele veio me pedir se eu não queria casar pra ficar aqui, porque uma moça tão bonita voltar pro Brasil e blablablá. Não, ele não me pediu em casamento, disse que tinha um amigo e não sei o quê. Pareceu surpreso quando eu disse que não pretendia casar só pra ficar aqui. Agora, na cartilha da Ucrânia deve ter: "Vá pra Alemanha como au pair, tente o visto de estudante e, se não conseguir, case com um alemão - se não achar um pague alguém pra simular um por tempo suficiente pra que seja liberado o visto definitivo". Não conheci uma ucraniana que não faça qualquer negócio pra ficar aqui. Mas outro dia descobri que as au pairs russas tem fama de seduzir o Gastvater...

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Minha mãe teve um sonho comigo esses tempos no qual ela acordava, me encontrava cozinhando e pedia o que eu estava fazendo lá, que eu devia estar na Alemanha. Eu disse que tinha voltado e o sonho acabou. Já meu pai andou perdendo o sono ao descobrir que eu vou voltar sem seguro de saúde, já que o da minha mãe não cobre filhos depois dos 21. 

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Sou realmente um ser óbvio. Os alemães não demoraram muito pra vir com o papo de "Ana, tu não sente frio?". Outro dia o guri do meio viu que a temperatura tava negativa e veio me cobrar pra colocar o casaco, já que, segundo ele, num dia tava zero grau e eu só sai de blusão de casa. Vesti o casaco, saímos e eu disse: "Mas eu tô com um baita calor" e ele arregalou os olhos achando que eu tava falando sério.

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Nos últimos dias tô com a impressão que emagreci, mas isso eu só vou saber quando chegar em Berlin - onde tem uma balança e onde eu me pesei pela última vez. Eu acho que é só impressão mesmo, mas acho melhor não seguir na dieta dos dois últimos dias, que inclui escapar de casa cedo e voltar só à noite, vivendo de pão, frutas e cenoura. Ah, e cerveja. 

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Tô falida e esperando a próxima sexta que trará meu salário. Ontem fui no bar e enrolei a valer pra tomar a única cerveja que podia pagar. Estava indo embora quando um cara que nunca vi antes e com quem nunca falei resolveu me pagar uma. Ele veio fazer um brinde e voltou pro lugar dele, bem longe de onde eu estava. Nem acabei essa, o dono do bar veio me pedir se eu queria uma terceira porque um cara queria pagar. Eu aceitei, mas quando eu olhei pra onde o dono do bar tinha apontado, não vi ninguém me olhando pra agradecer e até agora não sei quem pagou. Ou seja, os alemães são estranhos. O pessoal com quem eu falo não me paga cerveja e os que eu não falo, pagam. Vai entender. 

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Amanhã três ucranianas experimentarão chimarrão. Vejamos o que acontece. 

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Ah, é, outro dia tava tomando chimarrão no parque e uma senhora turca sentou do meu lado e quase entrou dentro da cuia quando - discretamente - tentava descobrir o que eu tomava. Conversamos um pouco, expliquei o que era, ofereci e ela não quis. Passou o tempo todo com um olhar desconfiado até decidir ir embora. 

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Empacotando meus livros, abri um dos que comprei do Hesse em Berlin. Eu sempre tive certeza de que jamais os conseguiria ler por serem impressos em letra gótica, mas me surpreendi ao ler de relance várias palavras. Ainda há esperança!

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E ontem matei a saudade de lagartear no sol num dia frio e ler Hermann Hesse (ainda o livro que comprei em Dresden).


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Provavelmente eu ainda tô deixando de fora algo, mas deixamos quieto. Espero aparecer semana que vem ao menos pra falar das malas. Já em Berlin não sei como será minha vida. No máximo, dou sinal de vida do Brasil. 

Bis bald!

2 comentários:

Pandora disse...

Você podia fazer um video néh?]!? Fez um quando foi, podia fazer um voltando! E sim, esse foi um grande ano, parece que uma vida passou por debaixo de nossas pontes.

Que bom que você está voltando e que bom que sua mala dobrou de tamanho e provavelmente o seu mundo também. 21 anos, você tem a idade de Rafaela...

E Ana, daqui a exatamente um mês vou está a essa mesma hora terminando de fazer as malas e indo para o Rio Grande do Sul!

Allyne Araújo disse...

Não sei, mas acho q vc vai sentir falta disso... Talvez seja só impressão minha, mas. Enfim. Eu vou sentir falta dessas belas fotos q vc posta, e isso é um fato!!! rsrsrsrsr.... bjo