O futebol é engraçado

domingo, 8 de dezembro de 2013

Pelo menos quando não se é torcedor de um dos times. Aí o futebol pode ser hilário (ou tedioso). 

Depois de passar um ano me enrolando pra ir num jogo alemão, fui assistir Stuttgart x Hannover 96 na Mercedes-Benz Arena.que na época da Copa se chamava Gotlieb-Daimler-Stadion e sediou 4 jogos. O inglês do bar só o que fazia era diminuir o valor de um jogo do Stuttgart, disse que uma vez foi no estádio e quase morreu de tédio, e que a única vantagem era que se pode beber cerveja lá (ao contrário de Brasil e Inglaterra). O que foi tedioso pra ele, pra mim foi engraçado. 

A Inglaterra é o berço do futebol, o Brasil é o Brasil, e cada vez que converso com o inglês (que odeia a Argentina por causa de certo gol com a mão de Deus) vejo como as duas torcidas são parecidas - ou os alemães que são muito diferentes. Uma das indignações do Brian (o meu avô inglês) é que as torcidas são misturas: "O adversário faz gol e eles só faltam dar um abraço nos outros torcedores pra parabenizar", ele diz. Eu já acho interessante. No estádio acabei achando engraçado.

O Stuttgart venceu por 4x2. Nos gols do Stuttgart o pessoal ficava de pé, gritava, o som do estádio tocava um rock e a parte do estágio com torcida em pé pulava. Nos gols do Hannover, o canto do estádio só com torcedores dos visitantes (creio que uma excursão) pulava e se via uns torcedores rivais pulando em meio dos de Stuttgart. Isso pra mim foi engraçadíssimo. E ninguém nem reparava nesses solitários rivais. Nenhuma cara feia, só silêncio. E na saída do estádio, todo mundo junto, sem distinção de torcida, tal como não há na venda de ingressos.

Toda vez que eu e o Brian rimos do sossego da torcida alemã, nos dizem que nem sempre é assim, que em jogos contra times ingleses (os grandes rivais alemães), por exemplo, as torcidas são separadas e os policiais escoltam todo mundo até as estações. Provavelmente isso acontece porque os ingleses são fogo e, pior, os alemães entendem inglês. 

Além disso, ver um jogo de futebol sem ser torcedora sempre é engraçado. Tu fica feliz com qualquer roubada de bola ou gol bonito sem se importar de quem seja, tal como diz automaticamente "putamerda" em qualquer perda de gol, seja em qual trave for. Eu me diverti a valer vendo essas minhas reações automáticas sem reparar na camiseta, ao mesmo tempo que achava bonito um ou outro alemão se exaltar e xingar o juiz ou vaiar o adversário. 

Mas eu creio que achei tudo tão engraçado por ser meio que inacreditável. Quer dizer, torcedores adversários sentados juntos, crianças de todas as idades, casais de todas as idades, espaço para cadeirantes lotado, banheiros limpos e pessoas bebendo cerveja na mais perfeita paz. Nada de briga ou violência. Apenas o esporte como diversão. Sem falar que eu, sozinha, não tive problema de qualquer espécie. Será que um dia veremos isso no Brasil?

O jogo era às 15h30, cheguei pouco antes das 14h e já achei que era tarde. Entre descer do trem e sentar no meu lugar, acho que demorei uns vinte minutos, sendo metade dele para caminhar até o estádio. Não havia absolutamente ninguém. Nada de fila e meia dúzia de outros torcedores sentados. Vi o pessoal chegando aos poucos, a maioria depois das 14h30 - até porque muitos ficam nas lancherias comendo, bebendo e conversado, afinal a localização dos lugares é facílima, muito bem sinalizada e há inúmeros funcionários pra ajudar, um em cada entrada. E era só um jogo normal do campeonato alemão com dois times médios e nada sendo diretamente disputado. 

Ah, vale ressaltar aqui, especialmente pro pessoal de Caxias, que logo que cheguei ouvi duas músicas do Maná tocar em questão de 20 minutos, Vivir sin aire e Ana. Ironias da vida. (Pros não caxienses: dias atrás foi descoberto que o show do Maná anunciado para 2014 em Caxias foi um golpe em que o pessoal da Festa da Uva caiu. Como se isso surpreendesse.)

Não sei a temperatura ao certo, mas tava friozinho e tinha gente que levou até cobertor! Tudo altamente normal. Há uma barra de ferro especial pra que sejam penduradas as faixas e no fim do jogo o telão avisa os horários dos trens e metrôs - e tudo funciona tão direitinho que muita gente prefere ir de trem a ir de carro. Obviamente que o trem lota logo, mas em dia de jogo há um reforço nos horários e, em vez de meia em meia hora, os trens são de cinco em cinco ou dez em dez minutos. Há seguranças normais de estação e alguns policiais, mais pra garantir a ordem do que pra forçá-la de alguma forma. 

O estádio não estava lotado, mas ao menos 60% dos 60 mil lugares estava ocupado. Há jogos mais baratos (tal como mais caros) e a média desse era de uns 35 euros. 

Pra finalizar, devo dizer que foi uma experiência realmente diferente. Assistir futebol em um estádio de Copa do Mundo sem o espírito de torcedora foi redescobrir que o futebol nada mais é que apenas futebol. Um esporte reconhecido pela primeira vez pelos ingleses depois de um professor universitário dizer que ele promovia a união, o que é algo difícil de se crer nos tempos de hoje, com tanto dinheiro e violência cercando a beira do campo. 

E, não, não tomei uma cerveja lá. Ao que parece, pagamento lá só com cartão e eu só tinha levado dinheiro. Mas ok, um dinheirinho economizado. Falando em Copa, lembram da minha promessa de conhecer todos os estádios da Copa de 2006? Pois bem, ainda faltam dois estádios e eu tô aqui entre fazer uma loucura financeira e passar metade de um dia em trens pra vê-los ou deixá-los pra próxima. E só me resta um fim de semana antes de ir pra Berlin, que fica bem mais longe desses estágios. Ir ou não ir? Eis a questão. Mas vamos às fotos antes de encerrar:

Chegada


O pessoal de amarelo é o pessoal do estádio



Olha o pessoal pendurando as faixas.

O mesmo grupo tinha uma dúzia de faixas

E vai enchendo...



A pobreza do banheiro

Todo mundo em pé pro início do jogo


Área em pé lotada. No meio, a torcida organizada cantando.




Hora de ir embora

Quando eu assimilava que devia fazer um vídeo e não uma foto, já era meio tarde, mas dá pra ter uma ideia.

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Observação: no jogo descobri que ano que vem vai ter show dos Scorpions em Stuttgart. Isso, somado aquela descoberta de Grease na Alemanha, quase me convence que vim pra cá no ano errado.

Bis bald!

3 comentários:

Pandora disse...

Eu fazia uma loucura e ia!!! As vezes há loucuras que correm o risco de ser tão sãs!!! E sim, isso é um sonho néh?!?!? Torce em paz, sem brigas, sem avacalhação, pessoas que bebem para ri, brincar e se divertir e não para agredir ninguém, xingar ou soltar os bichos!!! É uma experiencia que vale a pena essa a que você teve Ana, que bom seria se um dia a gente acordassem em uma Brasil país do futebol de verdade, no qual todos conseguissem fazer uma coisa como sentar e ver um jogo até mesmo com seu arqui rival sem ter que agredir ninguém no meio do caminho.

Buffon disse...

Muito bacana! Sempre tive a curiosidade e o sonho de assistir um jogo em solo europeu, pois o contraste parece ser enorme em relação ao que temos por aqui.

Costumo dizer que a maior proeza do futebol europeu é sua ótima organização, tanto fora como dentro de campo. E quando se tem isso, normalmente as coisas fluem bem, mesmo em jogos decisivos e tensos.

Depois do que aconteceu no jogo de hoje, entre Atlético PR x Vasco, o que você encontrou ai na Alemanha, aqui me parece pura utopia.

Confusões e brigas generalizadas no futebol ocorrem em qualquer lugar, mas especialmente aqui, na América do Sul, costumo dizer que "onde há futebol, não há racionalidade".

Anderson Kravczyk disse...

Bah, muito tri!!
Também vi um jogo do Stuttgart: Hertha BSC x Stuttgart no OlympiaStadium Berlim em setembro, o jogo terminou 1x0 para o Stuttgart.

Se alguém quiser ver taí o link do video q gravei lá:
http://www.youtube.com/watch?v=ZKf9TSthN5Q